Zeitgeist fail: como a Nokia dominou o mundo e perdeu o bonde do smartphone
- Dushka Tanaka
- 30 de mai.
- 2 min de leitura
Quem tem mais de 30 anos provavelmente teve um Nokia. O jogo da cobrinha, a bateria que durava dias, aquela solidez inconfundível. Entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000, a Nokia era a maior empresa de celulares do mundo, líder absoluta, sem rival à altura.
E mesmo assim, foi à irrelevância em menos de uma década.
O que aconteceu
A Nokia não perdeu o mercado por falta de tecnologia ou de recursos. Perdeu por não reconhecer a importância de uma transição que estava acontecendo bem na sua frente.
Com a chegada da internet móvel, o mercado de telecomunicações mudou de eixo: a voz deixou de ser o produto principal. Os dados passaram a ter mais importância. O mercado migrou de hardware para software. E o que os consumidores passaram a querer não era mais um aparelho resistente e confiável, e sim uma plataforma de aplicativos.
A Nokia estava tão bem posicionada no mercado que existia que não conseguiu enxergar o mercado que estava nascendo. Como analisou James Surowiecki para a The New Yorker, a empresa ficou aprisionada no sucesso do passado.
O paradoxo do líder
O caso da Nokia expõe um paradoxo recorrente entre empresas líderes: quanto mais bem-sucedida uma empresa é no modelo atual, mais difícil é para ela liderar a mudança para o próximo.
A liderança da Nokia queria preservar a experiência do usuário que havia construído ao longo de anos. Não queria liderar mudanças drásticas. E essa resistência — compreensível, até legítima do ponto de vista da gestão de risco — foi exatamente o que a tornou obsoleta.
As mudanças são inevitáveis. A questão não é se elas vão acontecer, mas quem vai liderá-las.
Zeitgeist fail: quando o sucesso vira armadilha
Zeitgeist fail é quando uma empresa perde o bonde da própria era, muitas vezes por excesso de comprometimento com o que funcionou até então.
É diferente de um erro estratégico comum. É uma falha de leitura de época: a empresa continua executando bem o modelo do passado enquanto o presente já mudou.
A Nokia e a Kodak são os dois casos mais citados desse fenômeno e têm em comum exatamente isso: não foram derrubadas por concorrentes mais eficientes no mesmo jogo. Foram ultrapassadas por um jogo diferente que não souberam jogar.
O que isso tem a ver com a sua empresa hoje
Toda empresa tem seu equivalente ao mercado de hardware da Nokia: o produto, o modelo ou a lógica de negócio que funciona hoje e, por isso mesmo, recebe toda a atenção, os recursos e a proteção da liderança.
A pergunta que vale fazer antes que o mercado faça por você: o que está mudando de eixo na sua categoria? Não as melhorias incrementais, mas quais são as mudanças de lógica? De hardware para software. De produto para plataforma. De posse para acesso.
Processos de inovação estruturada — como o Design Sprint, workshops de foresight e expedições com consumidor — existem para criar espaço para essas perguntas antes que virem urgência.
Porque quando viram urgência, geralmente já é tarde.

Comentários